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Realizações da Gestão 2019 - 2021

Comunidades

Quebrando tabus sobre saúde mental

 


A presidente da ACESPA, a administradora Rita Eloy, que é especialista em Gestão Estratégica de Pessoas, foi mediadora, nesta quarta-feira, dia 13, do evento online sobre o Adoecimento do Trabalhador na Administração Pública com as palestras que abordaram: "Saúde Mental no Trabalho e a Síndrome de Burnout no Serviço Público", com a psicóloga Suzana Coelho, e "Gestão das Emoções nas Organizações Públicas", com a " advogada Ana Warpechowski. O encontro foi promovido pela Câmara de Gestão Pública (CGP) e pelo Conselho Regional de Administração do Rio Grande do Sul (CRA-RS).

Às boas-vindas aos convidados foram dadas pela presidente do CRA-RS, Cláudia Abreu. Ela elogiou a formatação e o assuntos envolvidos no evento. Já o administrador Júlio Abrantes, atual coordenador da CGP, destacou a participação e iniciativa da mediadora do evento (Rita Eloy), que é membro constituinte da CGP.

Rita Eloy abriu o encontro abordando a importância do tema. A administradora destacou que esta deve ser uma prioridade dos gestores públicos. “Não devemos tratar o tema da saúde mental dentro da gestão pública como um tabu”. destacou:

A administradora acrescenta que a Organização Mundial da Saúde (OMS) alertou, há mais 20 anos, sobre o crescimento desse tipo de doença. As organizações deveriam ter essa preocupação, pois isso afeta a sociedade sobremaneira, pois as organizações são feitas por pessoas”, pontua Rita Eloy.

Ela entende que a falta de dialógo e desconhecimento deste tema, em especial dos gestores dentro das organizações, foi agravando o problema. Rita Eloy destaca que na área privada detectou iniciativas para abordar a questão da depressão, Síndrome de Burnout, entre outras doenças de origem mental.

A presidente da ACESPA acrescenta que o setor privado já percebeu que deve investir na questão da prevenção e cuidados ou nas políticas da saúde mental dos seus servidores. “Grandes corporações como a Natura e outras marcas norte-americanas já sabem que isso afeta a produtividade. Já no setor público, que lida com o bem comum, o tema não é tratado como deveria, pois é um assunto pouco difundido entre os gestores”, alerta Rita Eloy.

Em seguida, a administradora. Rita, passou a palavra para a primeira palestrante. Ela destacou o currículo da psicóloga Suzana Reis Coelho, que é especialista em Psicologia Organizacional e do Trabalho. A especialista é servidora municipal de Porto Alegre há mais de 20 anos, onde atua na mediação da Câmara de Mediação e Conflitos, da Procuradoria Geral do Município (PGM) e é atual presidente da Comissão e Saúde dos Servidores da Secretaria Municipal de Administração e Patrimônio de Porto Alegre.

Suzana Coelhou apresentou uma cartilha destrinchando os problemas emocionais e sociais mais comuns na atividade profissional e os seus desdobramentos. Para a especilaista, o servidor público, independente da área, é um promotor de direito. Por isso, esse profissional convive com uma cobrança diária. Ela ensinou que saúde metal é o estado de bem-estar no qual o indivíduo é capaz de usar suas habilidades, recuperar-se do estresse rotineiro, ser produtivo, e contribuir com a sua comunidade. “Uma saúde mental adequada é fundamental para lidar com os problemas do cotidiano”, resumiu.

Conforme a psicóloga, o funcionário público é acusado de ser o grande causador dos problemas sociais. Uma narrativa que nasceu, segundo ela, nos anos 1980. “Nos meios de comunicação, servidores eram descritos como aproveitadores do dinheiro público, os chamados marajás. Quem trabalha na área pública, sabe que isso não é verdade. Mas esse discurso acabou enxugando a área, extinção de órgãos, causando sofrimento nos colaboradores. Pessoas com conhecimento foram designadas para setores onde suas habilidades não eram reconhecidas ou potencializadas”, condenou Suzana Coelho.

Ela acrescentou que nas décadas seguintes ocorreu uma reversão desse quadro, com a valorização salarial dos servidores e com investimentos no setor público. Entretanto, de acordo com a psicóloga, nos últimos anos tem ocorrido um recrudescimento desse discurso dos anos 1980, que foi atenuado pela pandemia da Covid-19, mas basicamente direcionado para colaboradores da área da saúde.

Ela descreveu a Síndrome de Burnout como sensação de exaustão ou esgotamento de energia e um maior distanciamento mental da atividade laboral, negativismo ou cinismo em relação ao trabalho.

De acordo com Suzana Reis Coelho, atualmente o colaborador vive um processo de extrema competitividade, pressão por produtividade e disponibilidade infinita para o trabalho. “As novas tecnologias e mídias potencializam isso. Hoje estamos sempre conectados de alguma forma às nossas funções. Precisamos dar respostas cada vez mais rápidas, mantendo a qualidade, o que pode causar um desequilíbrio emocional nos profissionais”, destacou.

Ela revelou que os primeiros sinais que podem indicar a Síndrome são: estado de esgotamento, dificuldade para relaxar, irritabilidade, falta de sono, excesso ou falta de alimentação, eterno estado de prontidão e ansiedade alta. “Muitas vezes há uma dificuldade em chegar no diagnóstico preciso, pois pode ser confundido com depressão ou ansiedade. Porém a Síndrome de Burnout tem o componente do trabalho como fator desencadeante”.

A advogada Ana Warpechowski, que é Conselheira Substituta do Tribunal de Contas do Estado,  especialista em Neurociência e Comportamento, iniciou a palestra concordando em vários pontos com a fala da psicóloga Suzana Coelho. A especialista sublinhou que precisamos acabar com algumas divisões entre o poder público e a iniciativa privada: “dualismos precisam ser desmitificados”. Ainda segundo ela, outro paradigma que necessita ser quebrado é a separação entre corpo e mente. “Eles atuam juntos. Um pensamento acelerado pode desencadear uma doença cardíaca, por exemplo. A saúde mental afeta quem dorme mal, quem come demais, pessoas que não conseguem lidar com a ansiedade”, pontuou.

Ana Warpechowski revela que teve a Síndrome de Burnout em 2013. “Não sabia meus limites, me sufoquei de tarefas e tentava cumprir metas acima da capacidade física. O corpo te avisa: ‘vai sozinha, eu vou ficar por aqui’. Com o tempo, consegui me administrar, me entender, a terapia me ajudou muito”, explicou.

Na visão da advogada, às mulheres tem mais facilidade de identificar seus problemas, talvez por isso elas se afastam mais para tratar de problemas mentais. Ainda de acordo com ela, os homens também têm problemas, mas por introspecção acabam não compartilhando seus sentimentos. “O silêncio é um adversário”, alertou Ana Warpechowski .

Para a especialista, estamos numa sociedade adoecida: “Temos servidores adoecidos prestando um serviço adoecido. Somos cobrados pelo salário e estabilidade e acabamos sendo inundados de tarefas”, avisa. “Hoje falar sobre saúde mental está mais tranquilo, mas temos muito preconceito a ultrapassar. Até no processo de seleção público onde enfrentamos concursos rígidos, mas falta um acompanhamento depois que o profissional ingressa na carreira”, contestou.

Ana Warpechowski abordou ainda o crescimento da fome no País e o número impactante de suicídios dentro das corporações militares e questionou: “qual é o papel das administrações públicas dentro desse contexto?”

Para a advogada, precisamos plantar sementes agora para termos árvores ali na frente. “Necessitamos de florestas para respirar. Falamos hoje sobre saúde mental para nos tornarmos seres humanos melhores”.

Ana Warpechowski escreveu um artigo sobre este tema. Ela fez pesquisas sobre a saúde mental dos servidores públicos das três esferas: municipal, estadual e federal. Ela relata dificuldades em ter dados no setor.

Para acessar o artigo da advogada publicado na revista do TCE de Goiás: https://revcontext.tce.go.gov.br/index.php/context/article/view/113/77

O encontro também teve a participação da coordenadora Geral da Câmara de Administração Pública do CRA-SC, a Adm. Samara Bernardino.