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Problemas relacionados a Saúde Mental crescem no Brasil e preocupam especialistas

 

Acespa conversa com especialista em Psicologia Organizacional e do Trabalho

 

A Organização Mundial de Saúde (OMS) aponta que o conceito de saúde mental é o estado de bem-estar físico, psicológico e social. Um panorama complexo que precisa de atenção e cuidado integral, agravado ainda mais pela pandemia da Covid-19. A saúde mental, assim como a física é uma parte fundamental das funções orgânicas. A promoção da saúde mental é essencial para que o profissional tenha a capacidade de exercer as funções pessoais e profissionais.

 

A pressão do dia-a-dia pode corroer nossa saúde mental com exigências cada vez menos críveis, com metas inatingíveis e busca de performance e eficiência cada vez maiores. Com isso o estresse tende a aumentar e a capacidade e o tempo necessário de recuperação torna-se menor. Até a mega estrela da ginástica artística americana Simone Bells “sucumbiu” diante de tanta pressão. E o que sobra para nós, meros mortais?

 

Para se ter uma ideia, dados da Previdência Social indicam que, em 2016, mais de 75 mil trabalhadores foram afastados de seus cargos por conta de quadros depressivos. Já uma pesquisa de 2019 de uma ONG ligada a qualidade de vida, mostra que 72% dos brasileiros no mercado de trabalho sofrem alguma sequela causada pelo estresse. Desse número, 32% sofrem de burnout (esgotamento) e continuam trabalhando por medo de serem despedidas. O mesmo estudo também revelou que 9 em cada dez brasileiros no mercado de trabalho apresentam sintomas de ansiedade, e 47% deles sofrem depressão em algum nível.

 

Atualmente o serviço público é um dos segmentos que mais sofre pressão social, seja por ter que demonstrar que é eficiente e até mesmo demonstrar que é necessário. A categoria sofre com cobranças interna e externa por resultados. E quanto mais qualidade de trabalhe oferece a população, mais o sarrafo sobe. Tornando a busca por eficiência quase um labirinto de Creta.

 

Preocupada com essa questão, a Acespa conversou com a psicóloga Suzana Reis Coelho, uma especialista em Psicologia Organizacional e do Trabalho. Ela atua na Coordenação de Desenvolvimento e Avaliação Funcional (CDAF) da Secretaria Municipal de Administração e Patrimônio (SMAP) de Porto Alegre.

 

O setor tem por objetivo promover ações de desenvolvimento e qualificação dos processos e relações de trabalho, por meio de acompanhamento funcional nas modalidades individual e gerencial. Tem atuação desde o ingresso do servidor no município, com as entrevistas psicológicas, acompanhamento do estágio probatório, acompanhamento funcional para situações que envolvam dificuldades presentes no âmbito do trabalho e assessoria gerencial e de equipes.

 

O processo de acompanhamento funcional tem como meta melhorar os processos de comunicação, as relações interpessoais, o que favorecem o desenvolvimento de equipe de trabalho. Além disso, busca qualificar os processos gerenciais: métodos de avaliação, realização de feedback, organização e planejamento, identificação e desenvolvimento de competências  até a gestão de conflitos.

 

Suzana explica como funciona o processo em casos que “envolvem múltiplas dimensões” no acompanhamento funcional: “A gente acolhe a demanda, faz a escuta. Tentamos identificar o que são questões ligadas ao mundo do trabalho e o que são questões advindas de outras esferas da vida que fazem inter-relação com o desempenho e relações de trabalho. Dentro da nossa realidade, procuramos auxiliar no processo, na mediação com chefias. Até a indicação de busca por ajuda especializada como psicoterapia e acompanhamento psiquiátrico”.

 

De acordo com a psicóloga, as relações de trabalho inadequadas, agressivas que colocam o servidor em situações com alta carga de estresse, ou em situações vexatórias ou humilhantes, de permanente conflito podem ser geradoras ou agravantes de transtornos mentais. Por isso, no que se refere à saúde e qualidade de vida no trabalho o setor procura desenvolver ações de cunho informativo e promoção de cuidados à saúde individual e coletiva. À CDAF também cabe a assessoria às Comissões de Saúde e Segurança do Trabalho (CSSTs).

 

“A avaliação da capacidade laboral é responsável pelas avaliações social e psicológica, que junto com a avaliação médica realizada pela GSSM/SMS analisa as condições de saúde do servidor para

identificar as delimitações de atividades temporárias ou permanentes e até mesmo indicar a troca de cargo quando as limitações são extensas e permanentes”, sublinha Suzana.

  

Segundo a profissional, o servidor que identificar dificuldades para execução de suas atividades, por motivos de saúde (de qualquer natureza) pode solicitar a abertura de processo, via SEI, de avaliação de capacidade laboral. Caso não tenha acesso, o setor de recursos humanos ou de pessoal de seu órgão pode iniciar o processo. Também as chefias, a perícia médica ou o RH podem indicar a avaliação.

 

“Importante referir que é necessário que o servidor ao solicitar tal avaliação tenha exames e laudos médicos atualizados para justificar eventuais delimitações de tarefas ou até mesmo readaptação de cargo. Dependendo do tipo de atividade exercida a delimitação pode gerar revisão de eventuais gratificações associadas à atividade ou cargo. É um processo que busca preservar a saúde do servidor, quando por agravos à saúde, já houver algum dano à capacidade laborativa, seja temporário ou permanente”, destaca a psicóloga.

 

Suzana informa que a saúde mental já é, há alguns anos, considerada uma das grandes causas de afastamento de trabalhadores. “Em quantidade de afastamento não é a maior, mas é que afasta por mais tempo. A ideia de trabalhar na prevenção é fundamental, pois uma vez instalado o transtorno o tratamento e o retorno ao trabalho podem ser mais longos”, aponta a especialista.

 

A qualificação das relações de trabalho e a melhoria dos processos de gestão de pessoas é um dos aspectos fundamentais para promoção de qualidade de vida e preservação da saúde mental.